SESSÃO DE HISTORIAS

Postado por JANE HERCILIA , quinta-feira, 14 de janeiro de 2010 06:19

PIXOTE


Pixote vivia num lago sempre muito infeliz. Ele não gostava do lago. Lá era tudo muito escuro, escuro que nem breu, e Pixote morria de medo do escuro. Toda hora ele ia até a margem do lago. Botava a cabeça pra fora e achava tudo lindo. Céu azul, grama, sol. Flores para todo lado. criança, gato, cachorro, e era tão colorido, tão alegre, tão claro! Pixote queria morar na grama entre as árvores. Ele ficava um tempo na margem do lago, mas tinha de voltar pra água para respirar. Para não morrer. Pixote começava a nadar de novo, no meio do lago. Era uma escuridão sem fim, uma feiúra sem fim, uma tristeza sem fim. E a vida de Pixote era assim. Da água para margem e da margem para a água. Sempre sozinho, cheio de medo, infeliz da vida. Um dia, Pixote estava nadando e olhando os outros peixes. Eles brincavam, contentes nas águas claras do lago. De repente, Pixote pensou: - Ué! Outros peixes? Águas claras? O que aconteceu? - Será que vim parar em outro lago sem saber? perguntava Pixote. E olhava para todo lado e via um monte de coisas novas, via pedras de todos os tamanhos, de todas as cores. E plantas aquáticas, sapos, rãs. Até sapatos velhos e brinquedos de crianças tinha lá! E era tudo tão lindo! A água meio azulada, cheia de claros e escuros, cheia de brilhos. Uma beleza mesmo. Pixote olhava e ria. Cadê a escuridão? Cadê o medo? Pixote estava era contente, feliz da vida. De repente Pixote descobriu que tinha acontecido, e começou a rir. - Eu sou mesmo um pateta! Ficava nadando pra lá e pra cá, morrendo de medo do escuro... - Lógico! eu só nadava de olhos fechados!


MARIA-VAI-COM-AS-OUTRAS


Era uma vez uma ovelha chamada Maria. Onde as outras ovelhas iam, Maria ia também. As ovelhas iam para baixo Maria ia também. As ovelhas iam para cima, Maria ia também.


Um dia, todas as ovelhas foram para o Pólo Sul. Maria foi também. E atchim! Maria ia sempre com as outras. Depois todas as ovelhas foram para o deserto. Maria foi também.

- Ai que lugar quente! As ovelhas tiveram insolação. Maria teve insolação também. Uf! Uf! Puf! Maria ia sempre com as outras.

Um dia, todas as ovelhas resolveram comer salada de jiló.

Maria detestava jiló. Mas, como todas as ovelhas comiam jiló, Maria comia também. Que horror! Foi quando de repente, Maria pensou:

“Se eu não gosto de jiló, por que é que eu tenho que comer salada de jiló?”

Maria pensou, suspirou, mas continuou fazendo o que as outras faziam.

Até que as ovelhas resolveram pular do alto do Corcovado pra dentro da lagoa. Todas as ovelhas pularam.

Pulava uma ovelha, não caía na lagoa, caía na pedra, quebrava o pé e chorava: mé! Pulava outra ovelha, não caía na lagoa, caía na pedra e chorava: mé!

E assim quarenta duas ovelhas pularam, quebraram o pé, chorando mé, mé, mé! Chegou a vez de Maria pular. Ela deu uma requebrada, entrou num restaurante comeu, uma feijoada. Agora, mé, Maria vai para onde caminha seu pé.

Sylvia Orthof

LUCIA-JA-VOU - INDO
Lúcia-Já-Vou-Indo


(Maria Heloísa Penteado)

Lúcia Já Vou Indo não conseguia andar depressa. De maneira nenhuma. Andava devagar, falava devagar, chorava e ria devagarinho e pensava mais devagar ainda.

Muito natural, pois ela era uma lesma.



Um dia Lúcia-Já-Vou-Indo recebeu um convite para uma festa. Levou o dia inteirinho para ler o bilhete que dizia assim: “Chispa-Foguinho, a libélula, convida você para uma festa dançante, embaixo do Pé de Maracujá, às oito horas da noite do dia 30 de janeiro. Comes e bebes, muita música, muita alegria, tudo do bom, do melhor e de graça”.



Mal acabou de ler, Lúcia já se foi preparando para a festa. Queria se pôr a caminho imediatamente, embora faltasse ainda uma semana.



-Juro que vou chegar na hora!- Disse para si mesma. E começou a lembrar as muitas festas que havia perdido por chegar sempre atrasada. Ao aniversário da Maroquinha Cocinela, que era sua vizinha, chegou um dia depois da festa. Ao casamento do grilo João das Pintas com Sarapintada, chegou tão tarde que foi encontrar um casal já com um filhinho.



Nesse instante, o relógio da sala bateu três horas da tarde e Lúcia Já Vou Indo teve um sobressalto.

Pois não é que já perdera duas horas pensando naquelas coisas? E começou a se arrumar afobadamente.



Pôs na cabeça uma peruca de cachinhos com um laçarote de fita cor de laranja, e com isso perdeu um dia inteirinho.

Encheu uma cesta com brotinhos de alface para ir comendo pelo caminho, e lá se foi mais um dia. Deu corda no relógio para que não parasse na sua ausência e outro dia perdeu.



Só faltava fechar a casa e ela perdeu nesse serviço mais um dia.



Enfim, a molenga se pôs a caminho, tendo exatamente três dias para chegar ao Pé de Maracujá que não era muito longe.



Chegou o dia da festa e ela ainda estava andando. Pelo caminho encontrou muita gente que também ia pra lá. Viu dona Içá, com a cinturinha apertada num cinto de fivela de ouro, de braço dado com o marido de camisa listada e boné. Viu Lili Taturana, toda besuntada de brilhantina para que seus pelinhos não ficassem arrepiados. Viu Zé Caramujo de cachecol xadrez enrolado no pescoço. Viu as formiguinhas Quem-Quem numa longa fila, comportadas e quietinhas como meninas de orfanato a passeio num domingo. Viu abelhas, besouros, pernilongos, vespas e mil outros bichinhos. Todos passavam por ela e sumiam ao longe.



-Depressa , assim você não chega! – Diziam de passagem.



E ela dizia devagarinho mastigando um brotinho de alface:

-Já Vou Indo... Já Vou Indo... – Esse esforçava, pensando que estava andando um bocadinho mais depressa.



Que engano! Quase não saía do lugar.

Enfim, ela começou a ouvir a orquestra das cigarras. Estou pertinho, pensou, mais algumas horas e estou lá.



E o seu entusiasmo era tamanho que até conseguia de fato, andar um pouquinho mais depressa.



-Olha a pedra no caminho! – Gritou nesse instante João-Barata do Mato, que também ia indo pra festa.



Aviso inútil, porque Lúcia-Já-Vou-Indo a viu muito bem. Era a Maria Redonda, uma pedra perversa que gostava de pregar peças nos outros. Ficava sempre no meio do caminho, de propósito para que tropeçassem nela e caíssem. Então ria de se sacudir toda.



-Eu vou me desviar dela – pensou a lesminha. Mas a coitada pensava mais devagar ainda do que andava. Por isso não teve tempo de se desviar. Tropeçou e caiu. Mas não se machucou porque caiu muito devagarinho. Tão devagarinho que a pedra nem achou graça.



Lúcia levantou-se, arrumou a peruca que se havia entortado na cabeça e foi buscar a cestinha que havia rolado longe. Nisso, perdeu um dia e mais outro.



Quando chegou ao Pé de Maracujá, não havia mais nem sinal de festa, a tão esperada, comentada e suspirada festa.



Quem achou graça no caso foi o Pé de Maracujá. Começou a bater uma folha na outra e cantar assim:



“Lúcia-Já-Vou-Indo

Vinha vindo, vinha vindo,

Tropeçou numa pedrinha,

foi caindo, foi caindo”!



Mas Lúcia não achou graça nenhuma. Chorou muito, o seu chorinho vagaroso de lesma: uma lágrima por hora, um soluço a cada meia hora.



Chorou, chorou, mas seu choro manso não conseguiu acordar a libélula Chispa-Foguinho que dormia cansada da festa. Ela só escutou o chorinho da lesma no outro dia quando acordou.



- O que será isso? – a libélula disse e foi espiar. Viu a pobre Lúcia chorando, compreendeu tudo e ficou morrendo de pena.



Foi buscar uns docinhos que sobraram da festa e ofereceu-os à Lúcia. Conversou bastante com ela para ver se a consolava, e nada. Lúcia-Já-Vou-Indo continuava com o seu choro em câmara lenta e depressa a libélula se cansou. Numa última tentativa ela disse:



- Sabe Lúcia, quem vai dar uma festa agora é você. Sendo a festa na sua casa é impossível você chegar atrasada.



A lesminha ficou pensando naquilo e, como pensava muito devagar, a libélula chamou as irmãs e, ligeiras como foguetinhos, foram à casa da Lúcia, prepararam tudo e distribuíram os convites.



Credo! A família da libélula era toda elétrica. Zás-trás e tudo ficou pronto. Só faltava colocar a Lúcia dentro de casa para receber os convidados.



Enquanto isso, Lúcia-Já-Vou-Indo, que já tinha acabado de pensar e estava encantada com a idéia, vinha vindo o mais depressa que podia, talvez dentro de alguns dias - se não tropeçasse outra vez na pedra Maria Redonda- estivesse em casa.



E a libélula Chispa-Foguinho tinha agora um problema: os convidados já estavam chegando e a festa não podia começar porque a dona da casa estava fora. Como trazer Lúcia o mais depressa possível?



Cric!... A libélula deu um estalinho. Já descobrira a solução. Num abrir e fechar de olhos, explicou tudo às irmãs e foram buscar a Lúcia.

Puseram a molenga em cima de uma folha de capim e vieram voando trazendo a folha pelos ares. Danadas como elas só, em dois minutos a lesma estava em casa. Isso, apesar de ter caído da folha três vezes.



Foi assim que, oh maravilha!

Pela primeira vez na vida, Lúcia-Já-vou-Indo assistiu a uma festa inteirinha, do começo ao fim.


1 Response to "SESSÃO DE HISTORIAS"

Vânia Says:

QUERIDA JANE:

Jane tive que incluir sobre as “fadas” em meu TCC, sabe porque?
Estou apaixonada por elas, isto porque você me ensinou... sinta-se responsável por tudo aquilo que cativas...(Exupéry)

Com tantos anos de experiência que tenho no magistério, fico feliz por aprender muito com você.

Amo os contos de fada, historinhas infantis, adoro ouvi-las e você tem uma paixão e um dom incrível de contá-las... Eu me perco no pensamento, eu entro como parte do personagem, isto quando você começa a contar as historinhas (acho até que meus olhos brilham), tamanho é o meu interesse no momento em que eu a ouço...

Enfim, todos os elogios são para você e com toda a sua sabedoria que Deus lhe dá, espero que se realize e consiga atingir todos os seus sonhos (sejam concretos ou abstratos, mas serão SEUS!!!

Parabéns, para você e devo agradecer-lhe por estar participando deste curso que venho com o maior prazer do mundo.

Obrigada, Vânia C. M. M. C. Barbiere.

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